Beto Diz
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A Força Do Querer: O crime compensa

O que pensamos quando nos deparamos com alguém abrindo mão de sua dignidade, de sua própria vida, em nome de um amor? Qual legitimidade existe nesse ato? O amor compensa o crime? Em A Força do Querer, atual novela das 21h, a personagem Bibi, interpretada pela talentosa Juliana Paes, está abrindo mão de todos os […]

A Força Do Querer: O crime compensa

O que pensamos quando nos deparamos com alguém abrindo mão de sua dignidade, de sua própria vida, em nome de um amor? Qual legitimidade existe nesse ato? O amor compensa o crime?

Em A Força do Querer, atual novela das 21h, a personagem Bibi, interpretada pela talentosa Juliana Paes, está abrindo mão de todos os seus princípios, crenças e sonhos, em nome de um amor por um homem, que envolvido pelo tráfico e pelo dinheiro “fácil” que ele proporciona, está arrastando-a para a criminalidade e para o lodaçal imposto por esse tipo de vida.

Quando questionada, Bibi alega que age em nome do amor e da adrenalina que esse sentimento, recheado de “provas” e declarações, oferece.

Baseando-se na vida real de Fabiana Escobar, Glória Perez está tocando nas entranhas dos argumentos desse sentimento questionável e cheio de justificativas e explicações.

A Bibi de Juliana Paes vive numa constante crise de consciência. De um lado, a relação segura de um amor tranquilo e cheia de possibilidades, da qual abriu mão em função de uma paixão arrebatadora, porém arriscada e imprecisa.

O sentimento de culpa e cobrança, por ver os sonhos de uma carreira de sucesso e vida próspera se dissiparem diante da escolha pela adrenalina e pela corda bamba, leva Bibi a se enveredar pelo crime, acreditando trilhar um caminho sem volta.

Nesse trajeto, Bibi usa de diversos argumentos, que na verdade servem apenas para ela mesma, para justificar sua escolha. Entre os mais fortes estão o amor pelo marido, que a cobre de declarações e nenhuma segurança e a acusação imputada à Major Jeiza, vivida por Paolla Oliveira, de perseguir seu esposo. Na verdade, Bibi se vale desses argumentos como forma de trazer respostas para ela mesma.

Ela sabe que o marido não é tão “inocente e ingênuo” como ela diz ser e que a policial não o persegue gratuitamente, como ela diz. Mas ela precisa arrefecer sua culpa e dessa forma, alivia o marido e demoniza a policial. Assim, o quadro instalado fica menos pesado para ela suportar.

Fazer opções na vida não é fácil. Escolher requer uma luta de conflitos diários.
Quando a escolha gera culpa e sofrimento, se certa ou errada, com certeza não é a melhor. Escolhas acertadas, mesmo que contraventoras, são aquelas que não impõem sofrimento para quem as fez.

Pode ser que a escolha de alguém não se coadune com a legalidade, com as práticas sociais de boa convivência, com conquistas de sucesso e reconhecimento, mas se ela não gera culpa e amargura, foi “acertada”.

No caso da personagem Bibi, isso não acontece. Suas escolhas a fazem sofrer e estabelecer comparações com o que poderia ser diferente em sua vida, caso tivesse seguido outro caminho. Ela não consegue ser feliz com sua escolha.

Nesse ponto sua opção foi errada. Não pelo fato de ter escolhido a marginalidade e o crime em si, mas por sofrer com a escolha que fez.

Diferente de Rubinho, vivido por Emílio Dantas, que não sofre e só pensa nos lucros financeiros que a criminalidade lhe trará, Bibi não tem certeza se essa conquista financeira sobreporá à perda da sua paz e o roubo dos seus sonhos. Nesse caso, o crime compensa? Para Rubinho sim. Para Bibi, não. Ela teve opção de seguir diferente, em busca de uma felicidade que ela não sabe onde encontrará. Esse é seu verdadeiro conflito.

Isso gera no público revolta muito grande, que enxerga a infelicidade da personagem. Todos identificam o caminho correto para ela, que de certa forma, insiste em contrariar o que para todos é óbvio. A mãe Aurora, vivida por Elizângela, faz a vez da consciência acusadora, pois a mãe, incansavelmente, desde o início da relação da filha com Rubinho, aponta para o peito e para a cabeça de Bibi, mostrando-a o peso da escolha errada.

Bibi foi estruturada para isso, provocar no espectador essa avaliação do que uma escolha equivocada pode trazer de transtorno para a vida de alguém. Ou seja, Bibi se torna um altar ego do público.

A personagem mostra que várias são as formas e maneiras de alguém chegar ao crime. No caso dela, o amor foi a justificativa. Será?

O povo brasileiro está presenciando uma crise de valores no país, a partir das atitudes da classe política. A corrupção tornou-se um ato tão comum e corriqueiro que, mesmo sendo descortinada diante dos olhos de todos, em ações criminosas visíveis e inquestionáveis, os criminosos afirmam categoricamente que nada de errado fizeram. Articulam defesas forjadas diante de todos, como se estivessem fora do alcance dos olhos. Não se preocupam mais em esconder-se. Cobrem os rostos e deixam de fora a nudez de seus atos fraudulentos. Acreditam que tapando os próprios olhos, cegam todos os outros.

Mas são coerentes com eles mesmos, pois diferentemente da personagem Bibi, não sentem culpas e nem sofrem, dessa forma, tornam suas atitudes criminosas, não certas, mas acertadas. Aí está a coerência de suas ações.

Bibi, incoerente, segue seu rumo e o sofrimento é a prova inequívoca de que sempre existirá retorno no caminho, quando não estamos felizes nele.

Por Beto Alves

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Escrito por Redação MeDiz

There are 8 comments

  • Bacana demais seu texto! Como sempre! Cada leitura sua uma reflexão que fazemos.
    Neste caso, a conclusão de que o crime não compensa de forma nenhuma.
    Grande abraço.
    Cristine

  • Marcia disse:

    Boa reflexão.
    Crime nenhum vale à pena. Nem em nome de amor algum. Primeiramente o amor próprio deve prevalecer!

  • Rogério Machado disse:

    Que texto lindo é esse! Somos mesmo frutos de nossas escolhas, são elas é quem apontam o futuro, seja bom ou ruim aos nossos olhos cegos diante de um sentimento que julgamos superior à tudo. Cada vez mais vidrado nessa trama tão bem amarrada e conduzida. Glória é a rainha da lacração ! <3

  • Patricia Barros Arruda disse:

    Beto,como é acertado seu paralelo entre as escolhas e as consequências. Parabéns! Novamente, uma leitura agradável e reflexiva.

    • Beto Alves disse:

      Obrigado pelo incentivo. Não há ação sem reação, na mesma proporção – segunda Lei de Newton.

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