Beto Diz
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A Força do Querer: chega de hipocrisia, salve Glória!

Fazendo uma reflexão sobre minha trajetória de vida e avaliando todos os percalços enfrentados, todos os desafios e decepções, com instituições e pessoas, chego à conclusão que minha maior dificuldade foi lidar com a hipocrisia. Compreendi que, de todos os males, aquele que mais provoca a podridão humana é a hipocrisia. O ser hipócrita deteriora as […]

A Força do Querer: chega de hipocrisia, salve Glória!

Fazendo uma reflexão sobre minha trajetória de vida e avaliando todos os percalços enfrentados, todos os desafios e decepções, com instituições e pessoas, chego à conclusão que minha maior dificuldade foi lidar com a hipocrisia. Compreendi que, de todos os males, aquele que mais provoca a podridão humana é a hipocrisia. O ser hipócrita deteriora as relações, pois engana aos outros e a si mesmo; não usa de sinceridade, mas de pseudo-verdades. Aquelas que servem para agradarem e não para desnudarem. Fazem a linha do “deixa disso” para não encararem a realidade dos fatos. Valorizam o que vão pensar sobre o que devem pensar. Pervertem o pensamento ao invés de o subverterem em consentimento. Enfim… Manipulam e mascaram a realidade dos fatos. A realidade brasileira apodreceu e a hipocrisia está na raiz do problema.

No setor político, leis são apresentadas com o objetivo de coibirem as discussões livres nas escolas, manuais intransigentes de discriminação e preconceito são criados, suscitando a violência, ignorando e amenizando crimes. Direitos dos trabalhadores são retirados. Benesses a usurpadores são garantidas. Propinas são pagas a deputados para comprarem votos e impedirem investigações, dizendo depois que são liberações corriqueiras de emendas. Torturadores e assassinos são exaltados em pleno parlamento. Aposentados são deixados sem salário, passando fome. Cavalaria e cães, pimenta, bombas, cassetetes e balas são utilizados sobre a população em manifesto por dignidade, respeito e honestidade. Por fim, hipocritamente, dizem estão colocando o país nos trilhos. Tudo isso acontece sob nossos queixos e muito pouco fazemos contra esse desrespeito. Esquecemos dos discursos eleitoreiros e continuamos elegendo os mesmos bandidos.

Com toda essa farsa armada, as pessoas ainda se utilizam de discursos intolerantes, piegas e hipócritas, para criticarem as diferenças. Preocupam-se com as crenças, as opções de vida e o prazer dos outros, querendo crer que suas orientações de vida devam ser a receita para os demais. Esse preâmbulo é para arrematar a série de textos apresentados sobre a novela A Força do Querer, de autoria de Gloria Perez, exibida pela Rede Globo às 21 horas. Opiniões devem ser respeitadas, mas nem por isso, estão impedidas de serem analisadas, discutidas e discordadas.

Glória Perez está fazendo um trabalho primoroso em A Força do Querer, como já fez em muitos outros trabalhos seus. É uma autora que gera polêmicas e angaria seguidores e odiadores. Muitos a demonizam, e outros tantos sentem-se contemplados e apaziguados por sua trama. Ela mostra, claramente, que um produto de entretenimento pode tornar-se um serviço público. Portanto, dizer que sua novela é um desserviço é no mínimo ignorar as evidências contrárias. A Força do Querer está abordando os conflitos que envolvem a questão dos transgêneros, muitas vezes ignorados pela educação formal e pelos programas de saúde pública. A seriedade sobre os problemas relacionados ao vício em jogos, que é uma patologia que destrói famílias e alimenta o crime. O tráfico de drogas e armas, bem como sua interferência nas relações familiares. O perigo do crescimento tecnológico e seu uso indiscriminado para crianças e adolescentes. A luta dos indivíduos que estão fora dos padrões estéticos para serem aceitos. Ou seja, várias questões sociais, que muitas vezes são tratadas como tabus a serem escondidos, pois incomodam a sociedade hipócrita, estão sendo desnudadas.

Mas não pára por aí. Gloria Perez vem, ao longo de sua carreira, desnudando muitos nós sociais e dando voz a muitas questões delicadas, imbricadas no seio da sociedade e empurradas para debaixo dos tapetes da hipocrisia. Em Barriga de Aluguel (1990), Gloria tratou da fertilização in vitro, das mães de aluguel e seus trâmites legais, situação que na época não possuía legislação forte para resolvê-la e norteá-la. Em De Corpo e Alma (1992), colocou em pauta questões ligadas à doação de órgãos, possibilitando esclarecimentos e consequente aumento considerável de doadores, salvando, assim, um maior número de vidas. Na mesma novela, a autora abordou a troca de bebês na maternidade e as consequências desse fato para as famílias envolvidas. Como a arte passa pela vida, Gloria, nessa época, enfrentou um drama pessoal, o assassinato de sua jovem filha, que atuava na obra. A autora lutou bravamente, na Justiça, para que crimes como o sofrido pela sua filha fossem considerados hediondos para a legislação penal brasileira.

Na novela Explode Coração (1995), levantou a questão das crianças desaparecidas. A novela, inclusive, foi veículo de uma campanha social que deu voz a várias famílias que já vinham na luta em busca de entes desaparecidos. Por conta disso, muitas pessoas foram encontradas. Em O Clone (2001), além de suscitar um assunto ainda em pesquisa e muito comentado na época, a questão da clonagem de genes, Glória abordou o drama dos viciados em drogas, apresentando depoimentos verídicos de impacto para esclarecimento do público. Na novela América (2005), foi a vez de abordar o drama de imigrantes clandestinos para os Estados Unidos. Novamente, as drogas estiveram em pauta, dessa vez na utilização de imigrantes como mulas de traficantes. Gloria também abordou questões ligadas a maus tratos de animais em rodeios, gerando discussões profundas nas leis que orientam essa prática. Ainda levantou a questão da homossexualidade, o machismo e conflito de gerações nas relações amorosas entre uma mulher madura e um rapaz e vice-versa. Também suscitou o tratamento social dispensado aos deficientes visuais e ainda a abordou a cleptomania.

Em Caminho das Índias (2009), Gloria tratou de saúde pública por meio de um caso de esquizofrenia, bem como a falta de conhecimento dos tipos de tratamento e sua aceitação pela família. Também abordou a sociopatia e, com muito humor, a poligamia. Em Salve Jorge (2012), a trama criada abordava o tráfico humano, a prostituição e o tráfico de entorpecentes impostos por essa prática. Ainda abordou o comércio de bebês brasileiros para a adoção por estrangeiros. Enfim…
Desserviço? Produto de baixa qualidade?

Críticas são sempre necessárias mas, salve Glória Perez por fazer um trabalho de informação e educação que o Estado não faz, pois está preocupado com seus atos corruptos. Quanto à sociedade, seja menos hipócrita e encare, de frente, suas mazelas.

Por Beto Alves

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Escrito por Redação MeDiz

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