Beto Diz
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A Força do Querer: A mentira descompensa

Sustentar uma mentira não deve ser fácil. Mas se você a repete continuamente, como um mantra, acreditará nela sem vacilar, de forma que a verdade perderá todo o sentido. Uma mentira verdadeiramente contada torna-se mais real que uma verdade subentendida. Para muitas pessoas, viver assim é habitual, necessário, como um vício entorpecente, um estilo patológico […]

A Força do Querer: A mentira descompensa

Sustentar uma mentira não deve ser fácil. Mas se você a repete continuamente, como um mantra, acreditará nela sem vacilar, de forma que a verdade perderá todo o sentido. Uma mentira verdadeiramente contada torna-se mais real que uma verdade subentendida. Para muitas pessoas, viver assim é habitual, necessário, como um vício entorpecente, um estilo patológico de vida. Outras pessoas se valem de mentiras lá e cá para sustentarem uma história fictícia que, em algum momento, “precisou” substituir a verdade. Daí por diante, mentiras são contadas, uma após outra, para manter de pé a inicial, formando uma rede perigosa, pois o mentiroso corre o risco de se contradizer na própria história e ficar enredado em suas próprias tramas. Ele tem que acreditar, realmente, no que conta, para tornar crível para si mesmo e para quem recebe.

Na novela A Força do Querer temos exemplos diversos de mentiras contadas. Algumas, como fator de auto-proteção, outras para acobertarem situações de erros particulares e algumas por conta da maldade humana em si. A trama já inicia com uma mentira forjada como auto-proteção, mas que engana pessoas inocentes. Ritinha, interpretada por Isis Valverde, após ser flagrada pelo marido Zeca, vivido por Marcos Pigossi, com Ruy, Fiuk, é obrigada a fugir. Ritinha, porém, está grávida de Zeca e ao perceber que foi iludida por Ruy, o engana dizendo estar grávida dele. Devido a isso, decidem casar-se, mas Ritinha precisa esconder seu verdadeiro estado civil, tornando-se bígama. Essa história mostra uma rede de mentiras. Ritinha não tinha a intenção de mentir maldosamente, mas para se defender sentiu-se “obrigada” a mentir. A partir desse momento, a opção de omitir a verdade, a fez criar outras mentiras para sustentarem a primeira.

Aparentemente, Ritinha poderia receber o perdão social, afinal teve que fugir, Zeca a ameaçou com uma arma e Ruy, que a enchia de ilusões e belas expectativas, depois pretende abandoná-la “desonrada” e à própria sorte.  Mas essa auto-proteção justifica o rastro de mentiras que afetará muitas pessoas? Afinal, Ritinha esconde de um pai, seu filho e faz outro crer que o é. Deixa um suposto pai e sua família criar laços de afeto com uma criança que não está ligada consanguineamente a ela e ao mesmo tempo, impede que a família biológica de fato, conviva com a criança. Nada justifica uma leviandade como essa. A auto-proteção não confere a ninguém o direito de enganar tantas pessoas ao mesmo tempo. “Salvar a própria pele” é um ato humano natural de defesa, mas a consciência moral deve nos levar à percepção de que a mentira não é a solução para os problemas. A verdade é sempre a melhor opção. Outra vertente da mentira, que pode ser apontada na trama das 21 horas, é aquela criada para maquiar uma verdade que a pessoa não quer enxergar. Nesse caso, a mentira torna-se uma muleta de vida, pois assume integralmente o lugar da verdade e a pessoa mentirosa torna-se compulsiva e dependente das mentiras para sobreviver.

Como exemplo dessa postura, Glória criou Silvana, interpretada por Lília Cabral. Silvana é uma arquiteta de sucesso. Tem um casamento feliz com o empresário Eurico, vivido por Humberto Martins, uma filha linda, a Simone, personagem da bela Juliana Paiva, uma família estruturada e abastada. Tudo seria perfeito caso Silvana não fosse viciada em jogos de cartas e roletas de cassinos. A arquiteta mente, compulsoriamente e compulsivamente, para manter sua “distração” em segredo. Para tal ela enreda em suas trapaças outras pessoas, que se vêem obrigadas a participarem de suas mentiras para protegê-la. Silvana mente para os outros e principalmente para ela mesma.

Nessa situação, a mentira passa a ser uma verdade absoluta, enquanto que a verdade em si, é relativizada para justificar a mentira. Total inversão de papéis e valores. Enquanto mente a pessoa não tem escrúpulos e joga com os fatos a seu bel prazer, sentindo até satisfação na sua capacidade interpretativa da realidade. Porém, após e a sós, o sentimento de culpa assola o indivíduo, trazendo profunda dor e sofrimento. Esse tipo de mentira é difícil de ser abandonada, pois as pessoas que se valem dela acreditam que não são mentirosas compulsivas. Minimizam o ato alegando que são mentiras necessárias, apenas pequenas justificativas para evitar um confronto ou um mal-estar maior. Não enxergam o mal que estão causando a todos ao redor e principalmente a elas mesmas.

Agora, existe o mentiroso ardiloso. Aquele que usa da mentira como arma, estratégia para suas conquistas. Esse é o pior elemento, pois tem a consciência real do rastro de destruição que sua mentira causará. Optou por ela pensadamente. Usa de seus artifícios sem culpa ou remorso. Sabe exatamente o que deseja atingir com cada palavra mentirosa. Esse é o caso de Irene, a vilã de Débora Falabella. Irene é uma sociopata, não sente culpa, não se oprime ou deprime por mentir, pelo contrário, faz da mentira sua arma, não apenas seu álibi, como no caso da mentira “necessária”. Irene enganou Joyce, Maria Fernanda Cândido, para seduzir Eugênio, Dan Stulbach, com requinte de prazer. Ela arquiteta cada uma de suas mentiras sabendo exatamente para qual alvo as apontará. Essas pessoas são perigosas porque não vêem limites para sua ação. Seu único foco é a conquista final. E para isso não medem esforços, mas avaliam riscos.

A mentira é descompensadora, pois tira o indivíduo da realidade e muitas vezes o faz acreditar que mentir é mais prático e seguro. Dois ditos populares comprovam o equívoco dessa crença. Você pode enganar todos por algum tempo. Alguns por todo o tempo. Mas jamais será capaz de enganar a todos por todo o tempo. Ou seja, uma hora ou outra a verdade virá à tona, seja por intermédio de alguém ou pelo seu próprio tropeço. Diante disso, outra crença popular consegue resumir tudo: a mentira tem pernas curtas. Simples e direto.

Por Beto Alves

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Escrito por Redação MeDiz

There are 2 comments

  • Rogério Machado disse:

    Na ficção, a mentira é uma mal necessário ! (risos) Excelente texto!

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