Beto Alves
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A Força do Querer: a liberdade recompensa

Vestir uma bermuda, tirar a camisa e correr na praia sentindo o vento no peito, como os meninos, foi a definição de felicidade e liberdade que Ivana, personagem vivida por Carol Duarte, deu à sua psicóloga, em A Força do Querer. Ivana tem apresentado seu sofrimento, capítulo após capítulo, desde o início da novela. O […]

A Força do Querer: a liberdade recompensa

Vestir uma bermuda, tirar a camisa e correr na praia sentindo o vento no peito, como os meninos, foi a definição de felicidade e liberdade que Ivana, personagem vivida por Carol Duarte, deu à sua psicóloga, em A Força do Querer. Ivana tem apresentado seu sofrimento, capítulo após capítulo, desde o início da novela. O sofrimento da personagem é a representação de vida de muitas pessoas espalhadas pelo mundo. Uma luta entre o que é e o que aparenta ser.

A crise de Ivana dá tom e som a um dos temas mais discutidos na atualidade: a ideologia de gênero. Glória Perez adentra num campo minado ao criar a personagem Ivana e, através dela, conceder voz a um incontável número de indivíduos que, como ela, vive o drama da descoberta e aceitação da transexualidade. É preciso romper as barreiras dos tabus e dos rótulos, e encarar a natureza e a naturalidade dos fatos.

Para uma compreensão maior desse amplo universo, mesmo evitando a rotulação, foi necessária a criação de um “dicionário” para a explicação do mundo LGBT. Inicialmente, parece ser imprescindível essa compartimentacão de tipos. Ela até existe, mas isso não é o principal foco a ser observado. O que conta é a individualidade de cada um, o que cada pessoa é em sua essência, independente dos seus desejos e daquilo que a faz feliz e realizada. O que conta é o amor e o respeito. Esses são os ingredientes fundamentais para a convivência saudável entre os seres humanos. Mas a nível de compreensão apenas, Ivana é transexual. A transexualidade está no fato da insatisfação do indivíduo com o corpo que o encerra. Como se a pessoa que realmente é habitasse uma morada que não é sua. Por isso, ela não se sente à vontade com o corpo e precisa sair dele.

Os livros de Ciências sempre ensinaram que existem dois sexos. Homem é aquele que possui pênis, testículos e próstata. Mulher é aquela que tem vagina, útero, trompas e ovários. Ou seja, definimos sexualidade pela genitália e pelo aparelho reprodutor. A religião também dá seu tom… Deus criou apenas dois sexos, o homem e a mulher, e assim devemos ser para fugirmos do pecado e das trevas. Ameaça por meio do medo. Mordaça por intermédio de sentença de morte. Entendemos que essa binaridade é burra.

Aparelho reprodutor não tem nada a ver com a sexualidade de um indivíduo. O que nos comanda é o cérebro e o estado emocional que nos mantém vivos. Esses dois elementos são responsáveis pelas nossas realizações, que não têm nada a ver também com escolhas, mas com aquilo que verdadeiramente somos e com quem desejamos nos relacionarmos durante a vida. A felicidade só existe quando vivemos a plenitude da nossa verdade. Viver em mentiras e convenções é morrer em vida.

Ivana faz levantar diversos questionamentos: ela não é lésbica, não se sente atraída por outras mulheres; ela ama e deseja um homem, mas… não se reconhece como mulher. Por isso, não aceita seu corpo e o alvo de sua rejeição são os seios, sinônimo de feminilidade e sensualidade. Ou seja, Ivana tem todas as características físicas de uma mulher, mas não se identifica com esse gênero. Seus sentimentos e reconhecimento individual estão em lugar diametralmente opostos ao seu corpo.
Lindamente seria a vitória do amor sobre o físico. A aceitação de Cláudio, interpretado pelo jovem ator Gabriel Stauffer, que ama Ivana, sem se importar com a casca que ela vier a ter, mas com sua verdadeira essência.

Sabiamente, para tratar desse assunto de forma natural e informativa, sem correr o risco de cair no didatismo frio e ideológico, Glória Perez está promovendo um bate-bola entre os personagens Ivana e Nonato, vivido pelo ator Silvero Pereira, que dá vida à travesti Elis Miranda. Embora não compartilhem do mesmo núcleo da novela, Nonato/Elis têm apresentado ao público sua história de discriminação familiar e a necessidade de esconder-se do patrão machista, Eurico Garcia, que o ator Humberto Martins está dando vida brilhantemente. Nonato é protegido pela amiga de trabalho Biga, interpretada pela atriz Mariana Xavier, que também vive um drama identificado pelo preconceito, a discriminação ligada à gordura. Biga é feliz com seu corpo, sente-se atraente e sensual, mas é constantemente reprimida e repreendida a fazer dietas para satisfazer o padrão de magreza exigido pela sociedade.

A tacada da mestra Glória Perez para mostrar a diferença entre Ivana e Nonato/Elis, é fazer um paralelo entre as duas personagens. Todas as vezes que Ivana está conversando com sua psicóloga e deixa claro suas angústias com seu corpo feminino, Nonato/Elis Miranda aparece, fazendo um contraponto. Elis afirma que não mexeria em nada de seu corpo, pois é um homem, que se traveste de mulher, porém sabe que não é uma, mas que o faz para liberar o feminino que existe nele. Nonato já deixou claro que é homossexual e que seu interesse sexual não está nas mulheres. Os shows que faz são uma homenagem ao universo feminino. Ou seja: Nonato é homem e se entende como tal, mas sente atração e desejo por outros homens. Traveste-se de mulher para sua satisfação e sua arte.

Glória Perez apresenta essas duas personagens tão dúbias, mas tão intimamente ligadas pela realidade que cada dia nos assola, com relação à multiplicidade dos gêneros.
Uma verdadeira aula de informação e cidadania. Uma ode contra o preconceito e a intolerância. Não escamoteia e deixa claro: o preço da liberdade é alto, mas a recompensa é inquestionável e insubstituível.
Por Beto Alves

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Escrito por Redação MeDiz

There are 4 comments

  • Christian Petrizi disse:

    Ótimo texto, merecidas palavras para Glória Perez. Uma grande novelista, já provou seu talento anteriormente em novelas como O Clone, para mim sua obra maior pela forma como foi tratada ciência, avanços e tradições. Parabéns!

  • Patricia Barros Arruda disse:

    Beto, que dizer e não cair na reprodução infindável de elogios, que embora sinceros, não representam sua capacidade criativa e autoral? Parabéns! Parabéns! Parabéns! ! E muito obrigada por mais está excelente produção.

  • Rogério disse:

    Glória Perez está mesmo arrasando. Tratando o tema com respeito, força , mas sem pesar a mão , ou afrontar aos mais conservadores. Aliás, a novela é um acerto de ‘cabo à rabo’. Excelente texto como sempre.

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